Quando imaginamos um piloto de avião, existe uma imagem que aparece quase automaticamente: uniforme impecável, quatro faixas no ombro, décadas de tradição e, muitas vezes, um homem branco.
Essa imagem não surgiu do nada. A aviação civil foi construída durante décadas em ambientes nos quais determinadas pessoas tiveram muito mais facilidade para entrar, estudar, acumular horas de voo e transformar o sonho de voar em carreira. E, embora muita coisa tenha mudado, o cockpit ainda está longe de representar a diversidade da sociedade brasileira.
Mulheres: apenas 3,2% dos pilotos
Comecemos pelo dado mais fácil de medir. Segundo a ANAC, atualmente apenas 3,2% dos pilotos no Brasil são mulheres. O próprio programa Asas para Todos, criado pela ANAC e pelo Ministério de Portos e Aeroportos, reconhece essa desigualdade e possui iniciativas específicas para ampliar a participação feminina na aviação.
Isso significa que, de cada 100 pilotos, aproximadamente três são mulheres. E existe um detalhe importante: isso não significa que mulheres tenham menor capacidade para pilotar. Significa que elas estão chegando em número muito menor a uma profissão que exige formação, investimento, horas de voo e acesso a oportunidades. A própria ANAC descreve o programa Mulheres na Aviação como uma iniciativa para inspirar meninas e mulheres a entrarem na aviação civil e combater desigualdades históricas do setor.
Mas por que tão poucas?
Não existe uma única resposta. Existe o custo da formação. Existe a falta de referências. Existe a percepção de que pilotar avião é uma profissão "masculina". Existe o ambiente profissional. E existe algo ainda mais básico: quando uma menina quase nunca vê uma mulher no cockpit, pode ser mais difícil imaginar que aquele lugar também pertence a ela.
Representatividade não é apenas uma questão de fotografia. É também uma questão de imaginação profissional.
E as pessoas negras?
Aqui precisamos ter cuidado com os números. O Brasil possui uma população majoritariamente negra — considerando a classificação de pretos e pardos utilizada pelo IBGE — mas não existe hoje uma série pública da ANAC tão clara e atualizada quanto a estatística de gênero para mostrar exatamente qual é a proporção de pilotos negros. Isso, por si só, já revela um problema: a falta de dados também dificulta medir a desigualdade.
Existem, entretanto, iniciativas especificamente voltadas à questão racial na aviação. O relatório da ANAC sobre o programa Asas para Todos cita o Quilombo Aéreo, iniciativa criada para promover inclusão, empoderamento e visibilidade da população negra na aviação civil brasileira e combater o racismo estrutural no setor. O documento reconhece que desigualdades sociais, raciais e de gênero presentes na sociedade brasileira também se refletem na aviação.
Outra iniciativa, Pretos que Voam, já divulgou uma estimativa de apenas 2% de pilotos negros na aviação brasileira, mas esse número não deve ser tratado como uma estatística oficial atual da ANAC.
E onde estão os pilotos LGBTQIA+?
Aqui existe uma lacuna ainda maior. Não encontramos uma estatística pública oficial atual da ANAC que permita dizer "X% dos pilotos brasileiros são LGBTQIA+". E seria irresponsável inventar esse número.
Mas isso não significa que pessoas LGBTQIA+ não estejam na aviação. Elas estão. Há pilotos LGBTQIA+ trabalhando no setor e falando publicamente sobre suas experiências. Um exemplo é o comandante brasileiro Ricardo Augusto Saboia, da LATAM, que relatou sua trajetória profissional e descreveu a empresa como um ambiente no qual não sentiu necessidade de esconder sua orientação sexual.
O próprio governo federal incluiu pessoas LGBTQIA+ entre os públicos prioritários do programa Asas para Todos, ao lado de mulheres, pessoas negras, pessoas de baixa renda e pessoas com deficiência. Isso é significativo. Porque o problema não é simplesmente "existem poucos pilotos LGBTQIA+?". A pergunta também precisa ser: quantas pessoas LGBTQIA+ deixam de considerar a aviação uma possibilidade de carreira porque não enxergam espaço para elas? E essa pergunta é muito mais difícil de medir.
Ser minoria não significa ser incapaz
Existe uma discussão importante que precisamos fazer. Quando falamos em diversidade na aviação, não estamos defendendo que alguém deve ser contratado por ser mulher, negro ou LGBTQIA+ independentemente de competência. Não é isso.
Pilotar um avião exige competência técnica. Exige treinamento. Exige disciplina. Exige exames. Exige proficiência. Exige responsabilidade. Segurança de voo não negocia competência. Mas competência e diversidade não são coisas opostas.
A pergunta correta é: todas as pessoas que possuem capacidade estão tendo oportunidades semelhantes para desenvolver essa capacidade? Se a resposta for não, existe um problema.
O custo também seleciona quem chega
Para se tornar piloto, não basta querer. É necessário estudar, fazer exames, obter o CMA, fazer horas de voo, acumular experiência, investir em formação — e, dependendo do objetivo profissional, investir muitas dezenas ou centenas de horas antes de conseguir disputar determinadas oportunidades.
Isso cria uma barreira econômica importante. E essa barreira não é distribuída igualmente pela sociedade. Por isso, quando falamos de diversidade na aviação, precisamos falar também de classe social. Uma pessoa pode ter inteligência, disciplina, inglês, coordenação motora e vocação para a profissão — e ainda assim não conseguir financiar as primeiras horas de voo. O sonho pode morrer antes mesmo de chegar à primeira seleção.
A interseccionalidade torna tudo ainda mais difícil
Imagine uma jovem negra de baixa renda que sonha em ser piloto. Agora imagine um jovem negro LGBTQIA+ de uma família sem nenhuma ligação com a aviação. Ou uma mulher trans que quer entrar em uma profissão historicamente masculina.
As barreiras não necessariamente aparecem isoladamente. Elas podem se acumular. É por isso que falar simplesmente em "diversidade" pode ser insuficiente. Quem tem acesso? Quem consegue permanecer? Quem consegue chegar ao primeiro emprego? Quem consegue ser promovido? Quem consegue chegar ao comando? Essas são perguntas diferentes.
A própria ANAC reconhece que existe um problema
Essa discussão não é uma invenção das redes sociais. A ANAC criou o programa Asas para Todos, com três grandes frentes relacionadas à inclusão e diversidade, mulheres na aviação e formação de profissionais. Entre os objetivos está justamente combater práticas discriminatórias, promover um ambiente mais inclusivo e criar oportunidades para diferentes grupos ingressarem no transporte aéreo.
A própria ANAC também mantém um Comitê de Equidade, com diretrizes relacionadas à diversidade, igualdade de oportunidades, raça, gênero, identidade de gênero e orientação sexual. Ou seja: a própria autoridade aeronáutica brasileira reconhece que diversidade e equidade são questões relevantes para o setor.
Por que representação importa?
Porque uma criança não precisa apenas ouvir "você pode ser piloto." Ela precisa conseguir imaginar isso. Ela precisa encontrar alguém que se pareça com ela.
Uma menina precisa poder olhar para o cockpit e pensar: "eu também poderia estar ali." Uma pessoa negra precisa encontrar referências que mostrem que aquele espaço também pertence a ela. Uma pessoa LGBTQIA+ precisa poder imaginar uma carreira na aviação sem acreditar que precisará esconder quem é para ser aceita. E alguém de baixa renda precisa encontrar caminhos concretos para começar.
"Representatividade abre a porta da imaginação. Mas acesso é o que permite atravessá-la."
É por isso que o Piloto Fácil existe
O Piloto Fácil nasceu com uma ideia simples: Estude. Simule. Voe. Mas existe uma ideia por trás dessa frase: o conhecimento aeronáutico não deveria estar escondido atrás de barreiras desnecessárias.
Se você quer começar o PP, precisa saber por onde começar. Se quer estudar para a ANAC, precisa encontrar material. Se quer praticar, precisa ter simulados. Se quer aprender navegação, precisa poder treinar. E se quer entender como funciona um plano de voo, precisa ter ferramentas para praticar.
Quanto mais informação estiver disponível, menor é a dependência de quem já está dentro do sistema. E isso importa especialmente para quem não nasceu em uma família de pilotos.
O cockpit do futuro pode ser diferente
Talvez o maior erro seja imaginar diversidade como algo que acontece quando uma empresa decide contratar pessoas diferentes. A transformação começa muito antes.
Começa quando uma criança descobre que aviação existe. Quando um adolescente consegue acessar informação. Quando alguém descobre que não precisa necessariamente estar matriculado em uma escola para começar a estudar para o PP. Quando uma mulher encontra outra mulher que já voa. Quando uma pessoa negra encontra uma referência negra na profissão. Quando uma pessoa LGBTQIA+ percebe que existem comandantes que vivem abertamente sua orientação sexual. Quando alguém de baixa renda encontra uma bolsa, um programa de formação ou uma oportunidade que torna possível começar.
É assim que uma profissão muda.
Queremos ver mais pessoas chegando ao cockpit
A aviação brasileira não precisa escolher entre competência e diversidade. Pode — e deve — exigir as duas. Porque o objetivo não é colocar pessoas diferentes no cockpit apenas para produzir uma fotografia bonita. É fazer com que todas as pessoas que tenham capacidade e dedicação tenham uma chance real de chegar até lá.
O futuro da aviação brasileira deveria parecer mais com o Brasil: mais mulheres, mais pessoas negras, mais pessoas LGBTQIA+, mais pessoas de diferentes origens sociais, mais caminhos de entrada, mais oportunidades. E, acima de tudo, mais gente podendo olhar para o céu e acreditar que aquele lugar também pode ser seu.
Este artigo foi escrito com base em informações públicas da ANAC e de reportagens e iniciativas independentes citadas ao longo do texto (ver Fontes abaixo). Estatísticas sobre representação podem mudar à medida que novos levantamentos são publicados — sempre que possível, confira os números diretamente nas fontes oficiais.
Fontes
- Sobre o programa — Asas para Todos (ANAC)
- Asas para Todos — Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC)
- Mulheres ainda são 3,2% entre pilotos no Brasil — Like Magazine
- Programa Asas para Todos pretende aumentar diversidade e inclusão no setor aéreo — Ministério das Mulheres
- Programa do governo visa aumentar a diversidade na aviação civil — Agência Brasil
- Quilombo Aéreo — sobre a iniciativa
- "Pretos que voam" pretende trazer equidade racial para aviação civil brasileira — Mundo Negro
- Liberdade para ser você mesmo — comandante Ricardo Augusto Saboia, LATAM Airlines
- Plano de Trabalho do Comitê de Equidade 2025 — ANAC